Fragmentos do livro Memórias de um Bandeirante
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Tenho lido poucos livros em minha vida errante; quanto a escrever memórias, jamais me havia passado pela cabeça tal idéia. Parece-me entretanto, em minha ignorância, que se deva começar pela meninice. Mas, velho e desiludido, com as palavras rudes que possuo, como reviver os momentos ingênuos da infância? Talvez me saia melhor ao descrever a guerra, mas, já que dos primeiros anos é preciso falar, tentarei.
Éramos nove irmãos e irmãs e vivíamos aos cuidados de nossa mãe Isabel Cardoso, enquanto meu pai percorria os sertões, rastreando e escravizando índios. As meninas eram ensinadas a tecer, a costurar e a cuidar da casa. Os meninos, depois de aprender um pouco de escrita e leitura, as contas, e o latim da missa, passavam a acompanhar nosso pai e os tios em seu trabalho de bandeirantes.
Lembro-me do dia em que, contando eu doze anos, meu pai chamou-me a um canto e disse-me que me preparasse para ir com ele ao Sertão dos Araé e dos Goiases, para onde pretendia seguir em busca de índios. Eram extensas nossas terras, precisávamos sempre de mais e mais braços para cultivá-las. Esses indígenas são uma raça fraca, não se acostumavam com a nova vida, em pouco tempo morriam. Portanto era novamente tempo de ir ao sertão buscar nosso remédio. [páginas 12-13]

Eu estava feliz por viajar com meu pai, sentia-me por fim um homem. Mas sentia também receio das feras e, acima de tudo, das emboscadas dos selvagens. [...]
De madrugada, antes do nascer do sol, já estávamos de pé. Os escravos preparavam o chá de congonha sobre as brasas restantes da fogueira noturna, assavam-se beijus de farinha e esse era o alimento matinal. Arreavam-se os cavalos, fechavam-se as canastras, enrolavam-se as redes. Ao primeiro clarão do dia nos púnhamos em marcha.
À medida que o sol se levantava cada vez mais alto no céu, a temperatura se fazia quente. Aprendi a economizar a água levada nas cabaças, porque nunca sabíamos quando haveríamos de encontrar algum regato ou riacho. Ás vezes acontecia de marcharmos horas a fio sem ao menos um gole para beber.
Até que, lá pela metade do dia, de preferência junto a algum curso d’água, montávamos o acampamento. Se durante a caminhada houvéssemos abatido alguma caça, essa era nossa refeição, e também o mel e as frutas que por acaso tivéssemos recolhido. Caso contrário, tínhamos de nos conformar com apenas a farinha que transportávamos, e milho. Depois dessa refeição improvisavam-se choças de capim para nos abrigar à noite e saíam grupos para coletar alimentos. Mas, em algumas regiões, nada encontravam e então, por vários dias, a dieta não passava da maldita farinha de mandioca. Soube, pela primeira vez na vida, o que é sentir fome.
Assim que penetramos nos ermos goianos as palmeiras se tornaram numerosas. Seu palmito, a guariroba, é meio amargo, mas pode matar a fome do viajante. Ao avistar palmeiras buriti, as mais belas de todas com suas folhas abertas em leque, sabe-se que há rio ou lagoa por perto, pois só vicejam em locais úmidos. _ Os padres te ensinaram a ler nos livros. Comigo aprendes a ler a mata e a não morrer de fome e sede quando as provisões te faltarem, dizia meu pai. E apontava-me quais frutos contêm veneno e em que ocos de pau as abelhas ocultam seu mel. [páginas 15-17]
O ouro, amarelo, fulgurante – em pó, em folhetas, em pepitas – ia se acumulando nos depósitos. A fama da riqueza se espalhava pelo país e chegava ao além-mar.
Seguindo nossas pegadas, levas de aventureiros arribavam sem cessar, todos brigando por um trecho de lavra. Vinham nobres e vagabundos. Ricos querendo se tornar ainda mais ricos e também os miseráveis. Mulheres de má fama, que sempre aparecem onde há garimpo. Havia quem chegasse com apenas um ou dois escravos. Outros, com família, grandes comitivas e escravaria numerosa, equipamentos e guardas pessoais. As margens do Rio Vermelho não eram suficientes para tantos, e outros acampamentos se instalaram em vários locais, sempre junto a algum ribeirão. Preferi estabelecer-me em Barra, longe dessa turba.
Uma coisa igualava a todos. A chamada febre do ouro. É febre contagiosa, que faz brilhar os olhos, dá forças aos moribundos, anestesia a dor dos ferimentos. Endurece almas e corações. É doença que dá em homens e mulheres, leigos e clérigos, nos bons e nos maus. Faz esquecer a diferença entre o dia e a noite, levando a uma atividade ininterrupta. [página 60]
Foi decretado o confisco dos meus bens. Recorri, escrevi às autoridades.
Enquanto aguardo a decisão, vou acabando de rabiscar estas memórias. Sou pouco letrado, não sei escrever belas frases. O que aprendi nesta vida foi combater, varar o sertão, prear índios, descobrir ouro, servir ao rei. Mas o rei me abandonou.
Os velhos companheiros, ou estão mortos ou muito longe daqui. Quem haveria de dizer que eu sobreviveria a João e Domingos? Minha hora também se aproxima. Nada mais desejo, senão que deixem a Joana o suficiente para viver confortavelmente pelo resto dos seus dias e que meus descendentes saibam honrar o nome que lhes deixo como herança.
Serei logo esquecido? Talvez, enquanto houver Vila Boa, enquanto o Rio Vermelho correr por seu leito de pedra, o nome de Anhangüera, filho de Anhangüera, seja lembrado com alguma simpatia. [páginas 73-74]

Leia também trechos dos outros livros da autora
Inconfidências Mineiras
Barões e Escravos do Café

Leopoldina e Pedro I
Degredado em Santa Cruz

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