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| Fragmentos
do livro Memórias de um
Bandeirante
Copyright
© 2000 Sonia Sant'Anna
| Copyright © 2000 Global
Editora e Distribuidora Ltda.
A
reprodução não autorizada,
no todo ou em parte, constitui violação
do copyright. [lei 9.610] |
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| Tenho
lido poucos livros em minha vida errante;
quanto a escrever memórias, jamais
me havia passado pela cabeça tal
idéia. Parece-me entretanto, em
minha ignorância, que se deva começar
pela meninice. Mas, velho e desiludido,
com as palavras rudes que possuo, como
reviver os momentos ingênuos da
infância? Talvez me saia melhor
ao descrever a guerra, mas, já
que dos primeiros anos é preciso
falar, tentarei.
Éramos nove irmãos e irmãs
e vivíamos aos cuidados de nossa
mãe Isabel Cardoso, enquanto meu
pai percorria os sertões, rastreando
e escravizando índios. As meninas
eram ensinadas a tecer, a costurar e a
cuidar da casa. Os meninos, depois de
aprender um pouco de escrita e leitura,
as contas, e o latim da missa, passavam
a acompanhar nosso pai e os tios em seu
trabalho de bandeirantes.
Lembro-me do dia em que, contando eu doze
anos, meu pai chamou-me a um canto e disse-me
que me preparasse para ir com ele ao Sertão
dos Araé e dos Goiases, para onde
pretendia seguir em busca de índios.
Eram extensas nossas terras, precisávamos
sempre de mais e mais braços para
cultivá-las. Esses indígenas
são uma raça fraca, não
se acostumavam com a nova vida, em pouco
tempo morriam. Portanto era novamente
tempo de ir ao sertão buscar nosso
remédio. [páginas
12-13]
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| Eu
estava feliz por viajar com meu pai, sentia-me
por fim um homem. Mas sentia também
receio das feras e, acima de tudo, das
emboscadas dos selvagens. [...]
De madrugada, antes do nascer do sol,
já estávamos de pé.
Os escravos preparavam o chá de
congonha sobre as brasas restantes da
fogueira noturna, assavam-se beijus de
farinha e esse era o alimento matinal.
Arreavam-se os cavalos, fechavam-se as
canastras, enrolavam-se as redes. Ao primeiro
clarão do dia nos púnhamos
em marcha.
À medida que o sol se levantava
cada vez mais alto no céu, a temperatura
se fazia quente. Aprendi a economizar
a água levada nas cabaças,
porque nunca sabíamos quando haveríamos
de encontrar algum regato ou riacho. Ás
vezes acontecia de marcharmos horas a
fio sem ao menos um gole para beber.
Até que, lá pela metade
do dia, de preferência junto a algum
curso d’água, montávamos
o acampamento. Se durante a caminhada
houvéssemos abatido alguma caça,
essa era nossa refeição,
e também o mel e as frutas que
por acaso tivéssemos recolhido.
Caso contrário, tínhamos
de nos conformar com apenas a farinha
que transportávamos, e milho. Depois
dessa refeição improvisavam-se
choças de capim para nos abrigar
à noite e saíam grupos para
coletar alimentos. Mas, em algumas regiões,
nada encontravam e então, por vários
dias, a dieta não passava da maldita
farinha de mandioca. Soube, pela primeira
vez na vida, o que é sentir fome.
Assim que penetramos nos ermos goianos
as palmeiras se tornaram numerosas. Seu
palmito, a guariroba, é meio amargo,
mas pode matar a fome do viajante. Ao
avistar palmeiras buriti, as mais belas
de todas com suas folhas abertas em leque,
sabe-se que há rio ou lagoa por
perto, pois só vicejam em locais
úmidos. _ Os padres te ensinaram
a ler nos livros. Comigo aprendes a ler
a mata e a não morrer de fome e
sede quando as provisões te faltarem,
dizia meu pai. E apontava-me quais frutos
contêm veneno e em que ocos de pau
as abelhas ocultam seu mel. [páginas
15-17] |
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| O
ouro, amarelo, fulgurante – em pó,
em folhetas, em pepitas – ia se
acumulando nos depósitos. A fama
da riqueza se espalhava pelo país
e chegava ao além-mar.
Seguindo nossas pegadas, levas de aventureiros
arribavam sem cessar, todos brigando por
um trecho de lavra. Vinham nobres e vagabundos.
Ricos querendo se tornar ainda mais ricos
e também os miseráveis.
Mulheres de má fama, que sempre
aparecem onde há garimpo. Havia
quem chegasse com apenas um ou dois escravos.
Outros, com família, grandes comitivas
e escravaria numerosa, equipamentos e
guardas pessoais. As margens do Rio Vermelho
não eram suficientes para tantos,
e outros acampamentos se instalaram em
vários locais, sempre junto a algum
ribeirão. Preferi estabelecer-me
em Barra, longe dessa turba.
Uma coisa igualava a todos. A chamada
febre do ouro. É febre contagiosa,
que faz brilhar os olhos, dá forças
aos moribundos, anestesia a dor dos ferimentos.
Endurece almas e corações.
É doença que dá em
homens e mulheres, leigos e clérigos,
nos bons e nos maus. Faz esquecer a diferença
entre o dia e a noite, levando a uma atividade
ininterrupta. [página
60] |
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Foi
decretado o confisco dos meus bens. Recorri,
escrevi às autoridades.
Enquanto aguardo a decisão, vou
acabando de rabiscar estas memórias.
Sou pouco letrado, não sei escrever
belas frases. O que aprendi nesta vida
foi combater, varar o sertão, prear
índios, descobrir ouro, servir
ao rei. Mas o rei me abandonou.
Os velhos companheiros, ou estão
mortos ou muito longe daqui. Quem haveria
de dizer que eu sobreviveria a João
e Domingos? Minha hora também se
aproxima. Nada mais desejo, senão
que deixem a Joana o suficiente para viver
confortavelmente pelo resto dos seus dias
e que meus descendentes saibam honrar
o nome que lhes deixo como herança.
Serei logo esquecido? Talvez, enquanto
houver Vila Boa, enquanto o Rio Vermelho
correr por seu leito de pedra, o nome
de Anhangüera, filho de Anhangüera,
seja lembrado com alguma simpatia. [páginas
73-74] |
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Leia
também trechos dos outros livros
da autora
Inconfidências
Mineiras
Barões e Escravos do Café
Leopoldina e
Pedro I
Degredado em Santa Cruz
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