|
| |
 |
 |
 |
 |
| Fragmentos
do livro Leopoldina & Pedro
I - A
vida privada na Corte
Copyright
© 2004 Sonia Sant'Anna
| Copyright © 2004 Jorge Zahar
Editor Ltda.
A
reprodução não autorizada,
no todo ou em parte, constitui violação
do copyright. [lei 9.610] |
| |
| A
pobre louca chega em uma sege preta, cortinas
corridas para que não a vejam.
Dona Maria havia passado a vida entre
frades e confessores. Casaram-na com um
tio, 18 anos mais velho, também
afeito às coisas da Igreja. Aos
52 anos enviuvara. A seguir morreu-lhe
o filho primogênito, cumprindo a
maldição que perseguia a
Casa de Bragança desde que um Bragança,
muitos e muitos anos atrás, dera
um pontapé em um frade esmoler
que lhe pedia um donativo. Meses depois
da morte do filho, em questão de
dias, morreram-lhe também uma filha,
um neto recém-nascido e o genro,
só podia ser a ira divina, punindo-a
pelos pecados do pai ao sancionar os crimes
do marquês de Pombal. Sua religiosidade
mórbida havia aumentado. Com as
notícias da revolução
que ocorria na França, onde reis
eram decapitados, temendo a mesma sorte,
enlouquecera. Dona Maria é rainha
de Portugal e ali está, no embarcadouro
junto à Torre de Belém,
terço à mão e aos
uivos de "Ai, Jesus!", a caminho
da América.
Dom João, Príncipe Real
Regente, é filho de dona Maria.
41 anos, gorducho e ar bonachão
se aflige com a travessia. Teme tempestades
e oceanos. Não fossem as tropas
francesas às portas de Lisboa jamais
iria para tão longe. Se permanecesse
em Portugal, preveniam os aliados ingleses,
seria prisioneiro de Napoleão Bonaparte,
o conquistador que faz tremer as cabeças
coroadas da Europa. A seguir, já
senhor de Portugal, o imperador francês
se apossaria do Brasil, a mais próspera
colônia lusitana, que os ingleses
não querem ver em mãos do
inimigo comum. Mas, com dom João
no Rio de Janeiro, e com a proteção
da marinha inglesa, as minas de ouro,
o precioso açúcar do Brasil
não cairiam em mãos francesas.
Portugal perderia temporariamente seu
território europeu, mas a porção
maior e mais rica do império estaria
salva. Depois de concordar e recuar mil
vezes, dom João se vira forçado
pelo bom senso a aceitar o conselho dos
aliados.
João raramente tem ocasião
de fazer o que quer. Seu desejo seria
seguir a vida eclesiástica, viver
num convento entre cantatas e oratórios.
Sua boa voz e seu amor pela música
lhe garantiriam um lugar no coro. Mas
a maldição dos Bragança,
ao levar para o túmulo o primogênito
de dona Maria, fizera recair sobre seus
ombros o fardo do governo. Outra contrariedade
é a princesa espanhola que razões
de Estado lhe haviam destinado como esposa
e que suporta como mais uma das obrigações
desagradáveis que lhe cabem por
ser filho e neto de reis.
[páginas 15-16]
|
| |
| As
cigarras se calam, vaga-lumes piscam nos
jardins, uma brisa sopra do mar e ameniza
o calor. As noites são mágicas
nos trópicos, cheias de ruídos,
produzidos por seres que piam, batem asas,
rastejam entre folhas secas... frutos
maduros que tombam das árvores,
água que corre entre pedras e o
coaxar dos sapos... uma voz entoa um canto
triste que fala da África... Não
existe o silêncio, jamais, deste
lado do mundo.
Os escravos foram recolhidos à
senzala, e já não soam os
gritos e bofetadas com que os repreendem
a qualquer falta. Talvez um dia, pensa
Leopoldina, se acostume a esses modos
rudes e autoritários.
Apesar dos mosquitos, esta é sua
hora preferida, quando, após a
ceia, ficam a sós, ela e Pedro,
em seu pavilhão no Paço
de São Cristóvão.
Longe das intrigas da corte, das brigas
de família, das reclamações
da condessa Künburg e demais austríacas.
É tudo tão diferente do
que lhe prometeram... Por que a enganaram
com barras de ouro e cavalos ferrados
em prata?
A Boa Vista não passa de quinta
rural, onde seus trajes e modos vienenses
são motivo de chacota. Os apartamentos
dos recém casados são confortáveis,
mas as janelas dão para as estrebarias
— o cheiro de estrume e as moscas
tudo invadem. É tudo sujo, grosseiro,
uma etiqueta rígida tenta compensar
o que falta em requinte e gentileza. Há
cortesãos, lacaios e escravos por
toda parte, mas nada funciona a contento.
A nobreza em volta pouco se assemelha
aos refinados Marialva e Navarro, que
tomara por protótipos da nobreza
portuguesa. Os rapazes aqui se ocupam
apenas com cavalos, inclusive o marido,
que lhe haviam descrito como homem culto
e estudioso, mulheres nem sempre sabem
ler, sua conversa, com raras exceções,
se resume a futilidades.
O rei é bondoso para com ela e
merece todo seu amor, mas nunca toma banho
e raramente troca de roupa; os criados
aproveitam seus cochilos para costurar
e remendar os estragos. Quanto à
rainha, qualquer vendedora do mercado
tem maneiras mais polidas. O cunhado Miguel,
um belo rapaz, aos quinze anos mal sabe
ler e escrever e passa a vida em tabernas,
e seus únicos talentos, dos quais
muito se envaidece, são a habilidade
como guitarrista e toureiro, e ser forte
o bastante para levantar com os dentes
um fardo de 1 arroba. A família
real vive brigando entre si.
Pedro segue tocando flauta e Leopoldina
o acompanha ao piano. São momentos
felizes, esses que passam na sala de música,
quando ela esquece as grosserias de que
Pedro é capaz e das inúmeras
vezes em que se refugia no colo de Annony,
que chora ao ver magoada a sua menina.
[páginas
69-70] |
| |
| Num
vestido em cetim branco bordado de pérolas
sob o manto verde-Bragança do uniforme
de corte, a cabeça ornada de plumas
também verdes e um rico diadema
de brilhantes, Domitila caminha até
os degraus do trono pela mão de
dona Francisca. Os pescoços se
esticam, olhos não piscam, ouvidos
se aguçam. Esposa e amante se defrontam.
Domitila faz a reverência de praxe
e agradece a honra que lhe é concedida.
Leopoldina, aparentando indiferença,
ocultando a repugnância, dá-lhe
a mão a beijar e a ajuda a se erguer
– pensa consigo mesma que a outra,
apesar de tudo, é apenas a outra,
que deve dobrar os joelhos diante dela.
Se pensarem que não se importa,
será menor a humilhação.
A Primeira Dama pede permissão
para apresentar a irmã. Leopoldina
torna a estender a mão. [página
142] |
|
Leopoldina
passa inconsciente a maior parte das poucas
horas que lhe restam. Uma imagem da Virgem
é colocada à cabeceira da
cama. Às dez horas e quinze minutos
da manhã do dia 11, uma última
convulsão sacode o corpo da agonizante,
os presentes rezam o Ofício dos
Mortos. Leopoldina murmura "Mãe
do Céu... meus filhinhos... Brasil."
O bispo fecha-lhe os olhos, o choro explode
no palácio, se espalha pelo pátio
e vai se estendendo pela cidade. As tropas
são postas de prontidão,
teme-se uma rebelião popular.
Dois dias depois o corpo embalsamado é
levado ao salão nobre para o derradeiro
beija-mão dos filhos e súditos.
Pedro, o herdeiro, incapaz de entender
o que acontece, ri no colo da aia. Januária
e Paula Mariana choram, Francisca, dois
anos, assusta-se, por que mamãe
não abre os olhos? A rainha menina,
Maria da Glória, lança-se
gritando sobre o corpo da mãe.
O enterro sai à noite, à
luz de archotes. Maria da Glória
desce correndo a escadaria do palácio,
quer seguir junto com o caixão.
A marquesa de Aguiar a custo a leva para
dentro, a procissão toma o rumo
da Cidade. Na casa vizinha não
há luzes acesas e as janelas permanecem
fechadas. O povo, trajando luto, se ajoelha
à passagem do féretro. [...]
Quase à meia noite, Leopoldina,
um mês antes de completar 30 anos
de idade, é sepultada no Convento
da Ajuda. [páginas
163-164] |
 |
Leia
também trechos dos outros livros
da autora
Inconfidências
Mineiras
Barões
e Escravos do Café
Degredado em Santa Cruz
Memórias
de um Bandeirante |
|
|
|
 |
|
|
|
 |
|
|