Fragmentos do livro Leopoldina & Pedro I - A vida privada na Corte
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A pobre louca chega em uma sege preta, cortinas corridas para que não a vejam. Dona Maria havia passado a vida entre frades e confessores. Casaram-na com um tio, 18 anos mais velho, também afeito às coisas da Igreja. Aos 52 anos enviuvara. A seguir morreu-lhe o filho primogênito, cumprindo a maldição que perseguia a Casa de Bragança desde que um Bragança, muitos e muitos anos atrás, dera um pontapé em um frade esmoler que lhe pedia um donativo. Meses depois da morte do filho, em questão de dias, morreram-lhe também uma filha, um neto recém-nascido e o genro, só podia ser a ira divina, punindo-a pelos pecados do pai ao sancionar os crimes do marquês de Pombal. Sua religiosidade mórbida havia aumentado. Com as notícias da revolução que ocorria na França, onde reis eram decapitados, temendo a mesma sorte, enlouquecera. Dona Maria é rainha de Portugal e ali está, no embarcadouro junto à Torre de Belém, terço à mão e aos uivos de "Ai, Jesus!", a caminho da América.
Dom João, Príncipe Real Regente, é filho de dona Maria. 41 anos, gorducho e ar bonachão se aflige com a travessia. Teme tempestades e oceanos. Não fossem as tropas francesas às portas de Lisboa jamais iria para tão longe. Se permanecesse em Portugal, preveniam os aliados ingleses, seria prisioneiro de Napoleão Bonaparte, o conquistador que faz tremer as cabeças coroadas da Europa. A seguir, já senhor de Portugal, o imperador francês se apossaria do Brasil, a mais próspera colônia lusitana, que os ingleses não querem ver em mãos do inimigo comum. Mas, com dom João no Rio de Janeiro, e com a proteção da marinha inglesa, as minas de ouro, o precioso açúcar do Brasil não cairiam em mãos francesas. Portugal perderia temporariamente seu território europeu, mas a porção maior e mais rica do império estaria salva. Depois de concordar e recuar mil vezes, dom João se vira forçado pelo bom senso a aceitar o conselho dos aliados.
João raramente tem ocasião de fazer o que quer. Seu desejo seria seguir a vida eclesiástica, viver num convento entre cantatas e oratórios. Sua boa voz e seu amor pela música lhe garantiriam um lugar no coro. Mas a maldição dos Bragança, ao levar para o túmulo o primogênito de dona Maria, fizera recair sobre seus ombros o fardo do governo. Outra contrariedade é a princesa espanhola que razões de Estado lhe haviam destinado como esposa e que suporta como mais uma das obrigações desagradáveis que lhe cabem por ser filho e neto de reis. [páginas 15-16]

As cigarras se calam, vaga-lumes piscam nos jardins, uma brisa sopra do mar e ameniza o calor. As noites são mágicas nos trópicos, cheias de ruídos, produzidos por seres que piam, batem asas, rastejam entre folhas secas... frutos maduros que tombam das árvores, água que corre entre pedras e o coaxar dos sapos... uma voz entoa um canto triste que fala da África... Não existe o silêncio, jamais, deste lado do mundo.
Os escravos foram recolhidos à senzala, e já não soam os gritos e bofetadas com que os repreendem a qualquer falta. Talvez um dia, pensa Leopoldina, se acostume a esses modos rudes e autoritários.
Apesar dos mosquitos, esta é sua hora preferida, quando, após a ceia, ficam a sós, ela e Pedro, em seu pavilhão no Paço de São Cristóvão. Longe das intrigas da corte, das brigas de família, das reclamações da condessa Künburg e demais austríacas.
É tudo tão diferente do que lhe prometeram... Por que a enganaram com barras de ouro e cavalos ferrados em prata?
A Boa Vista não passa de quinta rural, onde seus trajes e modos vienenses são motivo de chacota. Os apartamentos dos recém casados são confortáveis, mas as janelas dão para as estrebarias — o cheiro de estrume e as moscas tudo invadem. É tudo sujo, grosseiro, uma etiqueta rígida tenta compensar o que falta em requinte e gentileza. Há cortesãos, lacaios e escravos por toda parte, mas nada funciona a contento. A nobreza em volta pouco se assemelha aos refinados Marialva e Navarro, que tomara por protótipos da nobreza portuguesa. Os rapazes aqui se ocupam apenas com cavalos, inclusive o marido, que lhe haviam descrito como homem culto e estudioso, mulheres nem sempre sabem ler, sua conversa, com raras exceções, se resume a futilidades.
O rei é bondoso para com ela e merece todo seu amor, mas nunca toma banho e raramente troca de roupa; os criados aproveitam seus cochilos para costurar e remendar os estragos. Quanto à rainha, qualquer vendedora do mercado tem maneiras mais polidas. O cunhado Miguel, um belo rapaz, aos quinze anos mal sabe ler e escrever e passa a vida em tabernas, e seus únicos talentos, dos quais muito se envaidece, são a habilidade como guitarrista e toureiro, e ser forte o bastante para levantar com os dentes um fardo de 1 arroba. A família real vive brigando entre si.
Pedro segue tocando flauta e Leopoldina o acompanha ao piano. São momentos felizes, esses que passam na sala de música, quando ela esquece as grosserias de que Pedro é capaz e das inúmeras vezes em que se refugia no colo de Annony, que chora ao ver magoada a sua menina. [páginas 69-70]
Num vestido em cetim branco bordado de pérolas sob o manto verde-Bragança do uniforme de corte, a cabeça ornada de plumas também verdes e um rico diadema de brilhantes, Domitila caminha até os degraus do trono pela mão de dona Francisca. Os pescoços se esticam, olhos não piscam, ouvidos se aguçam. Esposa e amante se defrontam. Domitila faz a reverência de praxe e agradece a honra que lhe é concedida. Leopoldina, aparentando indiferença, ocultando a repugnância, dá-lhe a mão a beijar e a ajuda a se erguer – pensa consigo mesma que a outra, apesar de tudo, é apenas a outra, que deve dobrar os joelhos diante dela. Se pensarem que não se importa, será menor a humilhação. A Primeira Dama pede permissão para apresentar a irmã. Leopoldina torna a estender a mão. [página 142]
Leopoldina passa inconsciente a maior parte das poucas horas que lhe restam. Uma imagem da Virgem é colocada à cabeceira da cama. Às dez horas e quinze minutos da manhã do dia 11, uma última convulsão sacode o corpo da agonizante, os presentes rezam o Ofício dos Mortos. Leopoldina murmura "Mãe do Céu... meus filhinhos... Brasil." O bispo fecha-lhe os olhos, o choro explode no palácio, se espalha pelo pátio e vai se estendendo pela cidade. As tropas são postas de prontidão, teme-se uma rebelião popular.
Dois dias depois o corpo embalsamado é levado ao salão nobre para o derradeiro beija-mão dos filhos e súditos. Pedro, o herdeiro, incapaz de entender o que acontece, ri no colo da aia. Januária e Paula Mariana choram, Francisca, dois anos, assusta-se, por que mamãe não abre os olhos? A rainha menina, Maria da Glória, lança-se gritando sobre o corpo da mãe.
O enterro sai à noite, à luz de archotes. Maria da Glória desce correndo a escadaria do palácio, quer seguir junto com o caixão. A marquesa de Aguiar a custo a leva para dentro, a procissão toma o rumo da Cidade. Na casa vizinha não há luzes acesas e as janelas permanecem fechadas. O povo, trajando luto, se ajoelha à passagem do féretro. [...]
Quase à meia noite, Leopoldina, um mês antes de completar 30 anos de idade, é sepultada no Convento da Ajuda. [páginas 163-164]

Leia também trechos dos outros livros da autora
Inconfidências Mineiras
Barões e Escravos do Café
Degredado em Santa Cruz

Memórias de um Bandeirante

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