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| Fragmentos
do livro Inconfidências
Mineiras | Uma
história privada da Inconfidência
Copyright
© 2000 Sonia Sant'Anna
| Copyright © 2000 Jorge Zahar
Editor Ltda.
A
reprodução não autorizada,
no todo ou em parte, constitui violação
do copyright. [lei 9.610] |
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| Tomou
a palavra o hospedeiro do Dr. Inácio
Alvarenga, um empresário português,
há tantos anos no Brasil que era
quase um brasileiro. Seu nome era João
Rodrigues de Macedo, solteiro e sem filhos.
Seu sobrado, perto da ponte de São
José, era o mais bonito da vila,
com um mirante no topo e balaustradas
de ferro nas janelas. Era contratante
do imposto de entradas, cobrado sobre
todas as mercadorias que entravam na capitania,
mas como a crise econômica fizera
cair a arrecadação de todos
os impostos ainda devia muito dinheiro
do contrato. Seus negócios incluíam
também importação
e exportação e uma empresa
de crédito. Da qual Alvarenga era
um dos devedores, assim como a maioria
dos empresários e até o
governo.
— Digam-me vosmecês se é
possível um homem viver assim esfolado!
Se pensam que a Coroa só explora
os brasileiros, enganam-se. Nós,
os portugueses que para cá viemos,
para fazer nossas fortunas, sem dúvida,
mas também enriquecendo Portugal,
somos encarados como galinhas dos ovos
de ouro. Mas querem torcer nossos pescoços
e, então, de onde haverão
de tirar mais ovos? A Coroa pouco se importa
com o bem de seus súditos, sejam
eles lusos ou brasileiros — Com
o rosto afogueado, pegou um cálice
de vinho do Porto, que engoliu de um só
trago, e continuou. Tenho lá em
casa hospedado o Cônego Luiz Vieira,
um sacerdote estudado, dono de muitos
livros. Andou lendo-me alguma coisa sobre
os Estados Unidos da América e
lá, como aqui, os impostos se haviam
tornado intoleráveis. E que fizeram
os americanos? Declararam sua independência.
A vinda do governador Luiz da Cunha Menezes
ameaçaria a fortuna desses ricos
senhores presentes à recepção
de Gonzaga, vários deles contratantes.
Portugal, em lugar de enviar e pagar funcionários,
preferia arrematar os cargos de fiscais
dos impostos, isto é, os fiscais
compravam os cargos, e a isso chamavam
contrato. Então os fiscais podiam
conservar para si parte da renda dos impostos.
Essa parte era apreciável nos bons
tempos, superando, e muito, o valor do
contrato; era a paga dos contratantes
pelo seu trabalho na fiscalização
e cobrança. Mas, como a produção
de ouro havia caído à metade,
e com ela todos os tributos, não
tinham conseguido pagar o valor da arrematação
e deviam, todos eles, uma fortuna ao Tesouro
Real.
O problema era muito delicado. Não
era segredo para ninguém que esses
contratantes, para compensar a queda nos
lucros, costumavam fechar os olhos ao
contrabando de ouro, diamantes e mercadorias,
em troca de uma contribuição
oferecida pelos contrabandistas. Até
oficiais e soldados do Regimento dos Dragões,
que deveriam patrulhar as fronteiras,
participavam do negócio. Ninguém
se sentia muito culpado por desviar da
Coroa ouro e dinheiro do Brasil, produzido
por brasileiros. Mas, dizia-se, D. Luiz
e seus asseclas costumavam perseguir os
sonegadores e guardar para si as propinas.
[páginas
32-34]
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| Alvarenga
não podia suportar a imobilidade.
O quarto filho nasceria em breve e não
podiam mudar-se antes disso. Então,
para quebrar a monotonia, ia seguidamente
a Vila Rica, onde, dizia, se organizavam
grupos para discutir a resistência
às novas medidas do governo. Voltava
excitado e era com ar de mistério,
a portas fechadas, que conversava sobre
os acontecimentos da capital.
Tiradentes comparecia às reuniões
que aconteciam no palacete de Freire de
Andrade, na rua Direita, para tramar a
independência de Minas Gerais. Narrou
ao grupo, que contava com mais adeptos
a cada dia, que vira, no Rio, a polícia
desmontando teares que faziam concorrência
aos tecidos portugueses. Esses teares
foram todos confiscados e seriam mandados
para Lisboa, levando à ruína
seus donos.
— Assim será sempre o Brasil,
se algo não for feito, e logo —
disse Maciel. É absurdo que, tendo
tanto ferro em nossa capitania, sejamos
obrigados a importá-lo da Europa
porque Portugal não nos permite
explorar o que temos aqui.
Maciel, que já pregava contra a
exploração colonial, estava
agora mais fervoroso, seu pai fora fiador
de alguns contratantes e estaria falido
se tivesse que pagar a fiança.
E pensar que o comandante Freire de Andrade,
quando casou com Querubina Maciel, imaginava
herdar uma fortuna... Aliás, o
comandante Freire tinha outros motivos,
além desse, para se preocupar:
haveria uma investigação
no corpo de Dragões e os comandos
seriam mudados.
Os doutores Gonzaga e Cláudio Manuel
da Costa, os homens mais respeitados da
capitania por seu saber e seriedade, já
haviam sido sondados, mas não diziam
nem sim nem não, não se
comprometiam. O Dr. Cláudio parecia
a ponto de aderir. O aristocrático
Gonzaga, entretanto, não admitia
que um alferes sem eira nem beira fosse
levado a sério. Só loucos
embarcariam numa revolução
que contava com um fracassado e inculto
tirador de dentes entre seus chefes. Duvidava
também da lealdade da maioria dos
conspiradores.
Na verdade, vários deles ali estavam
somente para defender seus bolsos e privilégios
ameaçados. O padre Rolim, que voltara
a Minas clandestinamente depois de ser
expulso pelo governador anterior, e o
padre Toledo, por exemplo, sabiam que
o visconde de Barbacena tinha instruções
para reduzir o dízimo da igreja
e investigar a fortuna dos padres.
Rodrigues de Macedo, outro que cedia a
casa para reuniões, e os contratantes
Silvério dos Reis e Abreu Vieira,
o compadre de Silva Xavier, haviam aderido
porque os inconfidentes pretendiam cancelar
todas as dívidas para com a Fazenda
Real – e eram devedores, os três.
Eram portugueses, mas a independência
da capitania representaria para eles a
independência econômica.
Portugal já não significava
muito para esses homens. Há tanto
tempo estavam no Brasil que pouco os ligava
à pátria de nascimento.
Silvério estava noivo de uma rica
brasileira. Atraiu para a conjura o futuro
sogro; este era seu fiador e, se as grandes
dívidas do contratante fossem executadas,
iria à falência com ele.
[páginas
71-73] |
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| A
população de Minas, assombrada
ao ver presos tantos cidadãos ilustres,
foi informada de que as detenções
se deviam a denúncias de contrabando
de diamantes em grande escala. O Dr. Silveira
mandou um capataz de confiança
a Vila Rica, disfarçado de tropeiro.
O capataz amarrava seus burros à
porta de alguma venda e negociava a mercadoria
com toda a calma, convidando os presentes
a provar da pinga que trazia para vender.
Assim, sem chamar a atenção,
andava por toda parte. Ao fim de uma semana
e meia, vendido o estoque e com uma lista
de encomendas, voltou à casa do
patrão.
— Doutor, tem tanto boato que ninguém
sabe muito bem o que é ou não
é verdade. Me conte uma coisa,
se não leva a mal eu perguntar;
estão falando que o genro de vosmecê
e os amigos dele não foram presos
por causa de diamantes nem por causa de
impostos atrasados. Dizem que eles queriam
botar os portugueses para fora do Brasil
e eleger outro rei.
— Não, não levo a
mal tua pergunta, mas, quanto menos souberes,
melhor para ti.
— O seu genro foi levado para o
Rio de Janeiro e está lá,
na fortaleza da ilha das Cobras, junto
com o Dr. Gonzaga, o alferes Tiradentes
e mais alguns. O Dr. Gonzaga foi obrigado
a desfilar pela rua, de madrugada, amarrado
a um cavalo. O Dr. Cláudio Manuel
está numa dependência da
casa de seu Rodrigues de Macedo, que o
governador requisitou para servir de prisão
porque a Cadeia nova só está
pronta pela metade e não cabe mais
tanta gente. Aquele moço que andou
por aqui, o tenente Dias Coelho, anda
caçando gente por toda a capitania.
Ninguém sabe do seu Macedo e a
polícia está atrás
do padre Rolim; chegaram a botar na cadeia
os outros irmãos dele, para ver
se denunciavam o seu esconderijo. Tem
muita gente sumida.
O disfarce de tropeiro havia funcionado
e foi providenciada mais uma partida de
aguardente.
O capataz voltou assustado. Continuavam
as prisões e suas perguntas começavam
a gerar desconfiança. Desculpasse
o patrão, não queria mais
espionar. Mas trouxera notícias.
O escrivão Manitti estava interrogando
os acusados. Quem podia, pagava caro para
ficar fora do inquérito. Quem calava
era torturado para confessar. Se a confissão
deixasse mal um dos pagantes, ou comprometesse
algum amigo do governador, Manitti só
anotava o que lhe interessava e ameaçava
novos castigos se não mudassem
o depoimento quando chegassem os juizes
mandados pelo vice-rei. Por outro lado,
prometia proteção a quem
delatasse os companheiros. Dr. Cláudio,
depois de reconhecer sua culpa e dar uma
lista de nomes, apareceu enforcado na
cela. O governador anunciou que ele se
havia suicidado, arrependido do seu crime.
Mas comentava-se que alguns suspeitos
haviam subornado um guarda para assassiná-lo,
para que não comprometesse mais
ninguém. [páginas
91-93] |
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Leia
também trechos dos outros livros
da autora
Barões
e Escravos do Café
Leopoldina e
Pedro I
Degredado em Santa Cruz
Memórias
de um Bandeirante |
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