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| Fragmentos
do livro Degredado em Santa Cruz
Copyright
© 2009 Sonia Sant'Anna
| Copyright © 2009 Editora FTD S.A..
A
reprodução não autorizada,
no todo ou em parte, constitui violação
do copyright. [lei 9.610] |
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Logo estávamos singrando o oceano, e só voltamos a avistar terra cinco dias depois, quando passamos ao largo das ilhas Canárias. Mais uma semana navegando e passamos diante do arquipélago de Cabo Verde. Um sinal convocou todos os comandantes para irem em escaleres conferenciar a bordo da nau capitânia, e ficou decidido que não desceríamos a terra para reabastecer, embora, com duas semanas de viagem, a água nos tonéis começasse a ter mau gosto e cheiro.
Vencidos os vômitos e enjôos dos primeiros dias, com as pernas já acostumadas a caminhar sobre um piso instável, eu ia aos poucos entendendo o fascínio que o oceano exerce sobre os homens. O céu parece estar mais perto, as estrelas brilham mais forte. A cada dia algo novo é avistado: uma ilhota coberta de vegetação, que nos faz ter saudades da vida em terra firme, um bando de pássaros revoando em algazarra em torno dos mastros, ou um tubarão que segue na esteira do barco, certamente pensando na farta refeição que um marujo poderia proporcionar-lhe.
Pescar, além de um bom passatempo nas horas de folga, garantia ao pescador bem-sucedido um almoço decente, em lugar da carne ou peixe salgados, que já começavam a criar mofo nas barricas e vinham sempre acompanhados de baratas, passageiras mais numerosas que a tripulação.
O mais difícil eram as noites, que se iniciavam pela procura de um lugar para dormir. Somente o capitão, oficiais e religiosos tinham direito a acomodações nos castelos de proa e de popa. Entre os tripulantes, os mais previdentes haviam trazido redes de dormir, o restante se arranjava como podia. Sob o toldo do convés junto às gaiolas de porcos e galinhas, dentro de um escaler, perto de algum fogão para aproveitar o calor das brasas restantes... ou ao relento mesmo. Qualquer lugar era melhor que o porão imundo e fétido, onde reinavam os ratos, entre barricas e tonéis que se soltavam das cordas e rolavam ao sabor das ondas, representando perigo constante de ter uma perna esmagada. [páginas 12-13]
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| Infelizmente não pude ficar ali, dançando à sombra das palmeiras, trocando presentes e gentilezas. Mandaram-me que fosse com outro degredado, João de Tomar, que haviam decidido deixar ali também, verificar onde e como viviam os nativos, e que passássemos noite com eles.
Pedi, por meio de sinais, ao velho que se mostrara tão amistoso na véspera que nos guiasse. Cruzamos o rio com água pelos joelhos, tomamos uma trilha que ladeava uma lagoa e em poucos minutos estávamos em plena floresta. Qualquer um, colocando-se em meu lugar, bem pode imaginar meu medo, suspeitando feras e arqueiros por trás de cada tronco ou moita, enquanto era levado para não sabia onde por um desconhecido de corpo pintado e coberto de penas, com pedaços de osso pendurados nos lábios.
Em cerca de meia hora avistamos uma aldeia. Meu guia apontou-a e disse: “taba”. Ao contrário do que eu imaginava, aquela gente não habitava sobre árvores ou em grutas. A taba se compunha de umas sete ou oito cabanas, tão compridas como nossas naus, com paredes e tetos de palha, em volta de um terreiro cercado por uma paliçada. Logo na entrada, crânios humanos espetados em paus (seria esse o nosso fim?). Por toda parte, restos de fogueiras, potes de barro, e crianças, muitas crianças, as menores amarradas às costas das mães por um pano, mas sinal algum de gado, templos ou altares.
[páginas
36] |
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Um dia ouvi Gonçalo Coelho comentar com o contramestre:
— Pelos cálculos do piloto, estamos próximos da linha que assinala o ponto em que começam os domínios do rei da Espanha. Temos que encontrar um local habitado para desembarcar nosso degredado Cosme.
— Tem razão, senhor — respondeu o contramestre — desse ponto em diante não poderemos mais baixar a terra.
— E como não sabemos por quanto tempo mais navegaremos sem poder reabastecer, melhor fazer um bom estoque de víveres, água e lenha — concluiu o capitão.
Não resisti à curiosidade e, assim que o capitão se afastou, me aproximei do contramestre.
— Vosmecê perdoe meu atrevimento. Se as terras daqui por diante não foram ainda pisadas por europeu algum, como podem pertencer ao rei da Espanha?
Quando Colombo descobriu as ilhas que pensava fazerem parte da Índia, ele me explicou, o rei de Portugal, que se julgava dono da rota para esse continente, e o da Espanha, em nome de quem Colombo havia feito as descobertas, passaram a se desentender a respeito da posse sobre os novos territórios que fossem encontrados. Para pôr fim à disputa, o Papa determinou que um meridiano marcaria o limite da área controlada por cada soberano. O que ficasse a oeste desse meridiano seria propriedade dos reis de Espanha. Pelos cálculos do piloto Vespúcio, já nos aproximávamos desse limite, e, a partir de então, se desembarcássemos, estaríamos invadindo território espanhol.
Achei muito estranho que terras que nem sabíamos se existiam já tivessem dono. Mas quem era eu para duvidar de algo que o Papa e os reis haviam determinado? [páginas
91-92] |
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Por poucos dias bordejamos ainda a costa, mas como eram águas espanholas, nos afastamos para mar alto e não voltamos a baixar a terra.
O sol se punha mais cedo, e as noites eram mais longas à medida que nos afastávamos dos trópicos. Os ventos eram constantes e nos impeliam velozmente rumo ao desconhecido. Embora estivéssemos no mês de março, ainda verão naquele hemisfério, e a temperatura diurna fosse amena, as noites eram frias, e os lugares próximos aos fogões eram disputados à hora de dormir.
Mais adiante, o céu foi tomado por nuvens carregadas, prenunciando tempestade. Nos raros momentos em que o sol podia ser avistado, o piloto aproveitava para conferir com o sextante a nossa posição. A força do vento aumentou e encrespou as águas. Recebemos ordens para reforçar as amarras em torno das toras de madeira, tonéis, e tudo mais que continha o porão. E aguardamos o que sabíamos que estava por vir.
A chuva caiu como se uma represa se houvesse rompido acima de nossas cabeças. Ondas enormes arrebentavam contra as frágeis caravelas, que subiam e desciam penosamente, fazendo estalar as tábuas do costado, e parecia-me que a qualquer momento a embarcação se desfaria em pedaços. As velas foram recolhidas e, por três dias, fomos jogados de um lado para outro, e só nos restava rezar para não sermos lançados contra um recife ou arrastados para dentro de alguma corrente que nos levasse para os confins do mundo. Apesar das precauções tomadas, toras e tonéis se soltavam das cordas e se entrechocavam com estrondo no porão abaixo, desequilibrando mais ainda nossos pobres navios. O pavor era visível em todas as fisionomias, do capitão ao mais humilde grumete, dos mestres experimentados aos marinheiros improvisados como eu. Jurei a mim mesmo que, se Deus me livrasse dessa, jamais voltaria a pisar algo flutuante, nem mesmo um bote de recreio para um passeio em um lago tranqüilo.
Pouco a pouco a fúria dos elementos se abrandou. Maltratadas, mas inteiras, as três caravelas haviam superado o pior.
Infelizmente ainda não havíamos chegado ao final de nossos males. A escuridão, o frio, fome e sede eram nossos novos inimigos. [páginas 94-95] |
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Leia
também trechos dos outros livros
da autora
Inconfidências
Mineiras
Barões
e Escravos do Café
Leopoldina e Pedro I
Memórias
de um Bandeirante |
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