|
| |
 |
 |
 |
 |
| Fragmentos do livro Barões e Escravos do Café | Uma história privada do Vale do Paraíba
Copyright © 2001 Sonia Sant'Anna | Copyright © 2001 Jorge Zahar Editor Ltda.
A reprodução não autorizada, no todo ou em parte, constitui violação do copyright. [lei 9.610] |
| |
| Marinheiros descem ao porão imundo e abafado; empunham chicotes e trazem pistolas à cintura. O cheiro azedo de vômito está por toda parte, misturado ao cheiro de urina e excrementos . Os marujos, enojados, soltam as correntes que prendem os corpos nus, esqueléticos, cobertos de feridas e moscas. Correntes que pendem vazias denunciam os muitos a morrer durante a travessia e lançados ao mar.
Ayuba, pouco mais que uma menina, cambaleia escada acima, até o convés. A luz ofusca-lhe os olhos, já acostumados à escuridão. Aos poucos vai distinguindo praias, edifícios, montanhas e florestas. Ar puro enche-lhe os pulmões.
O rebanho humano é transferido para botes; os remadores, negros como a carga que transportam, olham indiferentes, embrutecidos. Em terra os chicotes estalam, tangendo para um pátio homens, mulheres e crianças, que gemem de pavor.
À entrada do pátio, baldes de água são lançados sobre eles, removendo a sujeira de seus corpos. Dão-lhes a seguir panos grosseiros que atam em torno da cintura. Atiram-se sobre cuias de feijão e farinha, bebem sofregamente água fresca, tão diferente da água salobra servida duas vezes ao dia no navio. Mulheres e crianças são apartadas, e uma negra velha as conduz a um galpão. Lá dentro, outras mulheres se esparramam pelo chão e ao perceber entre as recém-chegadas alguém de sua tribo fazem-lhe sinal para que se acomode ao seu lado. [páginas 10-11]
|
| |
| Mais uma vez negros se haviam insubordinado numa fazenda, desta feita na Palmeiras. Marcelino José de Avelar, o proprietário, era dos tais que davam aos feitores carta branca para agir. Estes eram sempre gente de baixo nível. Se brancos, estando numa escala inferior da sociedade, descontavam seu despeito sobre os que lhes eram subalternos, os pobres pretos. Se negros, forros ou não, eram piores ainda. Senhores cuidadosos mantinham-nos sob atenta vigilância, para evitar excessos; não hesitavam em estropiar um trabalhador, não seria deles o prejuízo com a perda da peça, ou com uma baixa a mais à enfermaria.
Na Palmeiras, num dia em que os espancamentos haviam sido especialmente rudes, e um feitor mal humorado, irritado com as reclamações, interrompera o almoço dos trabalhadores, mandando servir a comida aos cavalos, um cabinda mais atrevido recusou-se a retomar o trabalho de estômago vazio. O feitor atou-o a uma árvore e teve início mais uma surra do dia; o cabinda, já meio desfalecido, sangrava por vários cortes.
Uma crioula que cozinhava para a turma de capina ameaçou:
— Si suncê num pará, vô queixá pra sinhozinho, qui eu vi nacê, as coisa qui suncê tá aprontano. E, deixando de lado o serviço, tomou o caminho em direção à casa-grande.
O feitor, que jamais havia visto tamanha indisciplina, derrubou-a com uma bofetada. Três jovens fortes, Januário Monjolo, Antônio Moçambique e Círio Congo, imobilizaram-no e ordenaram aos outros componentes da turma que o amarrassem. Depois tomaram-lhe o relho e, revezando-se, bateram até vê-lo desmaiar.
Só então caíram em si, percebendo a enormidade do que haviam feito. Sinhô Marcelino era brabo, bacalhau ia cantar no lombo de todos, por muitos dias. A fazenda do comendador Teixeira Leite, pai do Dr. Joaquim, não ficava longe. Improvisaram uma padiola para o crioulo ferido, incapaz de caminhar com as próprias pernas, e para lá correram em busca de padrinho, mas nada disseram da surra que haviam aplicado ao feitor.
Teixeira Leite ouviu atentamente as queixas: as surras por motivos fúteis, a comida do almoço servida aos cavalos... o cabinda na padiola respirava com dificuldade, os sulcos em suas costas confirmavam a história. O comendador mandou que se acomodassem no paiol por essa noite; no dia seguinte seu guarda-livros os acompanharia de volta à Palmeiras, portando carta de padrinho, pedindo que Marcelino, como um favor pessoal, fosse clemente.
Marcelino ignorou o apadrinhamento e mandou amarrar e surrar brutalmente os atrevidos, com todos os escravos em forma no terreiro para assistir. [páginas 80-82] |
| |
| No dia 11, em Vassouras, numa tentativa desesperada, escravos foram postos à venda, venda logo suspensa. No fim desse mesmo dia, aprovado na Câmara, o decreto foi enviado ao Senado, e o telégrafo, no dia seguinte, dia 12, trouxe a notícia a Vassouras.
Ninguém mais duvidava de que a escravidão seria extinta em poucos dias ou mesmo horas. Da casa de Sebastião de Lacerda saiu uma alegre passeata; a intervalos, de preferência diante da residência de algum escravocrata renitente, a banda de música silenciava para que um orador falasse ao povo.
Uns poucos negros já deixavam ressabiados as casas de seus senhores e se reuniam na praça. Ninguém barrou-lhes o caminho, outros foram se chegando. Naquela noite começou a se ouvir o toque do caxambu convocando para a dança. As portas e janelas dos brancos foram se fechando atemorizadas.
No dia 13, no Rio de Janeiro, o decreto foi aprovado, faltando somente a assinatura da princesa para entrar em vigor; apenas nove parlamentares, entre deputados e senadores, haviam votado contra, oito deles fluminenses. A regente, vinda às pressas de Petrópolis, às 3 horas da tarde recebeu os representantes da nação. Às 3 horas e 15 minutos, sob o aplauso delirante da multidão que se aglomerava diante do Paço, a herdeira do trono sancionou a lei que extinguiu para sempre a escravidão no Brasil.
No dia 14, às quatro horas da tarde, em Vassouras, onde era grande a expectativa, ouviu-se o brado: “Não há mais escravos no Brasil!”. Da janela de sua casa, em que o movimento era incessante desde a véspera, Sebastião de Lacerda falou mais uma vez ao povo; desceu então à rua, para se misturar aos que festejavam. Alguém lembrou: _ É preciso avisar os negros das fazendas! Eles não devem esperar mais nem um minuto. A galope seguiram os mensageiros da boa nova, anunciando “Cativeiro acabou! Cativeiro acabou!”.
Abandonando os cafezais, as tulhas, as cozinhas enegrecidas de fumaça, tanques de lavar roupa ou café, salas de costura, oficinas de todo tipo, escravos se concentravam diante da casa-grande. Dizendo à mulher e às filhas que se mantivessem ao abrigo, os proprietários desciam ao terreiro, pedindo o esquecimento de velhas mágoas. Nem sempre recebiam resposta, e recuavam amedrontados diante dos olhares soturnos que os fixavam. Famílias inteiras, carregando trouxas com seus minguados pertences, tomavam a estrada, e muitas nunca mais foram vistas. Um silêncio estranho aos poucos tomava conta de tudo.
Sinhás e sinhazinhas se perguntavam quem lhes faria o jantar e lhes traria a água quente para o banho. Atônitas, recriminavam as criadas que as abandonavam assim e deixavam famintas as criancinhas, sem ter quem as amamentasse. Seus pais e maridos tentavam salvar a situação, prometiam salários, boa alimentação e melhorias nos alojamentos — a que já não chamavam senzalas — aos que voltassem ao trabalho. [páginas 148-151] |
 |
Leia também trechos dos outros livros da autora
Inconfidências Mineiras
Leopoldina e Pedro I
Degredado em Santa Cruz
Memórias de um Bandeirante
|
|
|
|
 |
|
|
|
 |
|
|