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MEMÓRIA FAMILIAR AO ROMANCE HISTÓRICO
Sonia
Sant'Anna |
Revista Nossa História nº
18 | abril
de 2005
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Editora Vera Cruz
Copyright
©
2004 Nossa História
| extraído de Revista
Nossa História |
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Um
pouco dos causos repassados em família
mistura-se com muita pesquisa para envolver
o leitor com personagens marcantes da
Inconfidência Mineira
Nascida e criada entre estantes de livros,
fui atraída para a História
desde a infância, tal como me foi
apresentada por meu pai, historiador diletante.
Das histórias da História
que ele me contava, passei ao romance
histórico de capa e espada, e depois
à História propriamente
dita, inicialmente em busca de informações
sobre os personagens que já conhecia
dos romances. Pais e avós —
goianos e mineiros, gente contadeira de
causos — deleitavam-me com suas
recordações. A avó
materna, mineira, vaidosa de sua ascendência,
falava-me de sua antepassada dona Felipa
de Vilhena, dama portuguesa que armou
os filhos para que lutassem ao lado do
futuro d. João IV pela restauração
de Portugal como reino independente da
Espanha, em 1640.
Falava-me
também que sua avó, Maria
de Jesus, contava-lhe da própria
avó Iria: muito bonita, escrevia
versos, suas filhas aprendiam música
e francês, algo inusitado na época,
e tinha uma irmã também
bonita e poetisa, e ambas "haviam
tomado parte em uma revolução
lá em Minas". Iria, casada
com um Vilhena, mantinha sobre a entrada
de sua casa, em Campanha (MG), o brasão
nobiliárquico da família.
Lamento que a minha pouca idade não
me tenha feito anotar mais. E que minha
mãe, desconhecendo a importância
que um dia teriam para sua filha, tenha
destruído os cadernos em que
vovó registrara suas lembranças.
Já
adulta, uma resenha do jornalista Elio
Gaspari levou-me a ler A devassa da
Devassa, de Kenneth Maxwell. O livro
revelou-me uma Inconfidência Mineira
bem diversa da que havia aprendido na
escola, um movimento liderado por poetas
idealistas, que eu romanticamente imaginava
a conspirar em pobres mansardas (água-furtada).
Foi-me fácil compreender que
o Tiradentes jamais poderia ter sido
o chefe da conjura. Como poderia um
pobre alferes chefiar seu superior hierárquico,
o comandante Freire de Andrade —
ainda mais sendo filho, embora ilegítimo,
de um conde e governador —, e
os principais empresários e magistrados
da capitania?
Surpresa
ainda maior me estaria reservada anos
depois. Durante as pesquisas para um
romance infanto-juvenil que eu então
redigia, Memórias de um bandeirante,
lembrei-me de que na estante familiar
havia um livro sobre o bandeirante Amador
Bueno da Veiga, de autoria do meu primo
historiador e especialista em genealogia
Aureliano Leite. Entre os descendentes
de Amador listados por Aureliano estava
Maria Josefa da Cunha Bueno, casada
com José da Silveira e Souza,
mãe, entre outros filhos, de
Bárbara Eliodora, mulher do poeta
inconfidente Alvarenga Peixoto, e de
Iria Claudiana, casada com Matias Gonçalves
Moinhos de Vilhena. Então a Inconfidência
Mineira era a "revolução"
da qual, com grande exagero de minha
avó, havia participado minha
quinta-avó Iria.
Aureliano
apresentava Bárbara como heroína
e sua família como vítima
dos "horrores que se sucederam
à Inconfidência",
tais como o estupro da irmã de
Bárbara e de Iria, Maria Inácia,
por Dias Coelho, o encarregado de prender
Alvarenga. Aí estava um romance
à minha espera. Pouco a pouco
a ficção foi tomando forma,
mas bem diferente do que eu planejara.
Tiradentes, em torno do qual se desenrolaria
o drama, era pouco documentado. Em troca,
sobre Alvarenga Peixoto havia muitos
documentos, cartas suas e a seu respeito,
mostrando-me um personagem fascinante:
fanfarrão, devedor contumaz,
bajulador, mas devotado à sua
Bárbara Bela e à filha
Ifigênia, e extremamente simpático.
As
famílias Bueno/Silveira e Souza/Alvarenga
apareciam em muitos episódios
pitorescos: dívidas, negócios
nebulosos, filhos ilegítimos...
o estuprador de Maria Inácia
fora na realidade seu amante, e o filho,
dado como fruto do estupro quando da
prisão de Alvarenga, nascera
em 1786, bem antes da malograda rebelião.
Das páginas dos Autos emerge
ainda um Alvarenga acovardado, renegando
os companheiros e bajulando em versos
a rainha Maria I, na esperança
de um perdão. Da Bárbara
Eliodora descrita por Aureliano e tal
como é cultuada em Minas Gerais,
pouco restou: apenas a mulher bonita,
amante de Alvarenga antes do casamento,
dona-de-casa a driblar credores, a mãe
formosa das Cartas chilenas, que promovia
suntuosa festa para celebrar o batizado
do filho.
O
que mais me fascina na História
é o romance humano, pois, esquecem-se
muitos, os personagens históricos
foram também pessoas, e prefiro
surpreendê-los no momento em que
não sabem que serão um
dia "personagens". Trazer
algo de novo sobre a Inconfidência,
nunca foi minha intenção.
Apenas tentei resumi-la para atrair
um público que não tem
por hábito ler História.
Embora romance na forma, tento, o mais
possível, manter meus livros
fiéis à História.
Fabulação mesmo, só
o caso do visitante que lança
um bilhete avisando Alvarenga de que
a conjura havia sido denunciada, já
que, estando meus personagens em São
João del Rei, eu não poderia
contar o episódio do "Embuçado",
fato ocorrido em Vila Rica, em que um
misterioso desconhecido tentou prevenir
Gonzaga de que a rebelião já
era do conhecimento das autoridades.
Uma romancista não poderia desperdiçar
tal acontecimento.
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UMA
HISTÓRIA ÍNTIMA DO CASAMENTO
DO IMPERADOR
Isabel
Lustosa
| Jornal
do Brasil
|
2004
Copyright
© 1995-2000 Jornal do Brasil
| extraído
do JB Online |
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LEOPOLDINA
E PEDRO I - a vida privada na corte
novela histórica de Sonia Sant'Anna
| Jorge Zahar Editor
Coisa boa é ler uma história
bem contada. Mesmo quando é uma
história bem sabida. E ser bem
narrado não é o único
mérito do livro de Sonia
Sant'Anna sobre Dom Pedro I e
Dona Leopoldina. Ele é também
muito bem pesquisado, dando conta dos
aspectos mais interessantes que marcaram
o drama que foi a vida em comum do primeiro
casal imperial brasileiro. Trata-se de
narrativa mista: é ficção
mas tem notas de pé de página
e fornece ao leitor um bom panorama do
contexto histórico em que trafegam
os protagonistas.
Do
lado de D. Pedro, os antecedentes mais
conhecidos do público são
apresentados na seqüência
habitual: as aventuras de Carlota, a
esperteza de Dom João, a loucura
de Dona Maria, a fuga da Corte, a má
educação do príncipe
e suas primeiras aventuras com as mulheres.
O
lado de Leopoldina é mais interessante,
pois a autora se detém na história
de Maria Luiza, a irmã de Leopoldina
que casou com Napoleão, na educação
das princesas austríacas, a interessante
personalidade de sua culta madrasta
Ludovica, a quem Leopoldina foi estreitamente
ligada, e nas circunstâncias que
marcaram o casamento de Lepoldina com
Pedro. Sua paixão pelo marido
ainda desconhecido e o interesse de
sua alma de cientista pelo Brasil.
Após
o casamento, foi penosa a aculturação
da princesa aos hábitos da corte
portuguesa e a, mais penosa ainda, acomodação
á personalidade exuberante do
marido. A paixão de Leopoldina
por Pedro se conservaria intacta mesmo
em meio ao calvário que se tornaria
a relação após
a entrada em cena da Domitila e de sua
ávida e inescrupulosa família.
Antes disto, a firme atuação
da princesa, ao lado de José
Bonifácio, no processo da Independência,
dão grandeza a essa mulher tão
especial, como o revela a correspondência
que deixou.
Um
aspecto que merece reflexão é
a plena consciência das filhas
de Francisco I do dever de casar-se
em função dos interesses
políticos de seu país.
De alguma forma, foi esse sentido do
sacrifício do interesse próprio
por razões de Estado, inerente
ao status de princesa da casa de Áustria,
que fez com que Leopoldina se submetesse
às humilhações
que sofreu do marido. Só se rebelaria
no final, quando lhe foi imposta a presença
da filha bastarda do Imperador junto
de suas próprias filhas, ou nos
momentos finais de seu casamento quando,
ausente o imperador de sua casa por
quase um mês, mandou que levassem
para a casa da outra todos os seus pertences.
A
autora não acredita no suposto
pontapé que D. Pedro teria dado
em D. Leopoldina às vésperas
de partir para o Rio Grande. Pontapé
que teria sido a causa da morte da imperatriz.
A imprensa do tempo explorou o episódio
que circulou nas cortes européias
dando ao imperador brasileiro a imagem
de um ser brutal, selvagem e imoral.
As dramáticas cartas da imperatriz
relatando a sua miséria e os
relatos dos viajantes sobre sua situação
no Brasil também ajudaram a fixar
a imagem negativa.
Muito
do caráter dramático do
livro resulta do bom uso que a autora
faz de documentos, como as cartas de
d. Leopoldina para a família
e para Maria Graham. Se Dom Pedro, depois
da dissolução da Assembléia,
em 1823, vivia cercado de gente da mais
baixa qualidade, oportunistas que se
aproveitaram da ligação
do governante com a concubina para obter
benefícios, os poucos amigos
leais que restaram a Leopoldina foram
perseguidos e afastados.
A
solidão, a humilhação,
a pobreza e o aprisionamento da Imperatriz
na Quinta da Boa Vista, enquanto reinava
poderosa na Corte a Domitila, foram
testemunhados por Maria Graham. A formidável
inglesa, que é também
autora de um perfil bem interessante
de D. Pedro I, foi uma das últimas
amigas de D. Leopoldina.
A
narrativa alumia um pouco mais alguns
personagens secundários como
o barbeiro Plácido. Essa figura
ignóbil, administrador das contas
da Quinta da Boa Vista, que tanto perseguiu
a Imperatriz, era um dos amigos de primeira
hora da Domitila mas não teve
pejo de apoderar-se de muitos dos bens
da michela quando esta foi obrigada
a deixar a corte em 1829. O museu Imperial
tem um interessante documento sobre
isso.
Culta,
inteligente e boa, assim é a
Leopoldina que se revela nesse livro.
Perto dela o nosso Imperador, cercado
por sua corte de intrigantes e mexeriqueiros,
só realça as qualidades
da heroína que viera da corte
mais ilustrada e refinada e da Europa
para viver aqui um drama quase semelhante
ao da heroína do filme Dogville.
E bárbaro não foi o povo
que de fato amava a Imperatriz, bárbara
foi a elite medíocre, hipócrita
e corrupta cuja herança maldita
se propaga até hoje no seio da
nossa melhor sociedade.
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Isabel Lustosa
Cientista política e historiadora
da Casa de Rui Barbosa
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